A Receita Federal destaca que, caso o contribuinte regularize todas as omissões de obrigações acessórias, antes da publicação do Ato Declaratório Executivo (ADE), ainda será possível evitar a declaração de inaptidão
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Franquear ou não o serviço contábil? Eis a questão
Num país de legislação mutante, com excesso de exigências legais e digitalizadas, esse sistema pode ser uma opção para quem busca segurança na prestação de contas ao fisco
Imagine você, empresário, contratar um escritório de contabilidade e descobrir tempos depois que o contador é “seu”, mas a marca e o sistema de trabalho pertencem a outra empresa, já consolidada no mercado e detentora de procedimentos testados e aprovados?
A assinatura de contratos de franquias contábeis ainda é incipiente no Brasil, mas tende a crescer nos próximos anos, na opinião de especialistas e adeptos do sistema.
Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), o número de unidades próprias e franqueadas no setor passou de 24, em 2014, para 26, em 2015.
Embora existam apenas duas empresas que oferecem as marcas a outros contadores, há potencial de crescimento, mesmo que em ritmo lento, do número de profissionais interessados em optar pelo sistema de franquia em vez de começar do zero.
“O mercado da contabilidade vai passar por transformações semelhantes às que ocorreram com as farmácias, nas quais as grandes redes ocuparam os espaços das pequenas empresas do setor. A pessoalidade na relação com o cliente deixou de ser tão importante. O que importa é o profissionalismo na prestação do serviço”, diz o contador Vicente Sevilha Júnior, que optou pelo sistema de franquias porque quer expandir a marca sem grandes investimentos.
Prestes a completar 30 anos no mercado da contabilidade, o escritório de Sevilha “empresta” a marca a 10 franqueados, a maioria recém-formados em ciências contábeis.
As unidades estão localizadas nas cidades de São Paulo, São José dos Campos, Mogi das Cruzes, em Goiânia e no Rio de Janeiro.
A empresa de contabilidade desenvolveu um modelo próprio de franquia, no qual o interessado, depois de passar por um processo de avaliação, obtém o direito de usar a marca, os softwares e todo o sistema de trabalho para atender as exigências legais.
Fechado o contrato, o franqueado recebe um manual com os procedimentos descritos, passo a passo, para o cumprimento das obrigações acessórias exigidas pelo fisco.
O pacote também inclui estratégias para a prospecção de novos clientes, de atendimento via redes sociais, formatação de preços, além de suporte e treinamentos.
“Para qualquer mudança na regra contábil ou na forma, por exemplo, de elaborar uma obrigação acessória, o franqueado recebe treinamento e suporte de como fazer”, explica Sevilha.
De acordo com o contador, ele já recebeu mais de mil propostas de interessados em se tornar franqueados. Nem todos, entretanto, conseguem comprovar capacidade técnica e financeira para a empreitada.
Um dos requisitos para tornar-se um franqueado, no modelo desenhado pelo escritório, é ser contador e estar registrado no Conselho Regional de Contabilidade (CRC).
Além disso, é necessário provar capacidade financeira para investir no negócio. Os royalties equivalem a um percentual, não revelado, sobre o faturamento.
Um dos precursores do sistema na área contábil ressalta que os clientes pertencem ao franqueado, que tem a liberdade de cobrar quanto quiser pelo serviço prestado, embora receba sugestões de preços do dono da rede.
Num país de legislação mutante, com excesso de exigências legais e digitalizadas, além de fiscalização eletrônica, a franquia contábil pode ser uma opção para quem busca segurança na prestação de contas ao fisco.
“Acho que a existência da burocracia fortalece a ideia da franquia, principalmente daqueles que começam do zero e podem contar com o apoio de uma empresa com experiência”, diz Sevilha.
VELOCIDADE NA INFORMAÇÃO
Os irmãos e sócios, Anderson Cardoso, analista de banco de dados, e o contador Renato Cardoso, são franqueados do Sevilha.
De acordo com Anderson, o uso da marca é um diferencial, junto com a tecnologia usada na prestação do serviço.
“Temos à disposição um portal que possibilita notificar o cliente a pagar um boleto ou uma obrigação fiscal, de forma rápida e segura”, explica.
O contrato, de cinco anos, teve início em setembro do ano passado e hoje o escritório, localizado no bairro do Ipiranga, tem oito funcionários. A expectativa é ampliar o número de clientes.
Para o diretor da Consultoria FranSystems, Batista Gigliotti, as vantagens do sistema de franquia vão além da segurança, passando também pela velocidade e precisão na informação.
“A inserção de uma empresa em uma rede aumenta a troca de informações e isso é importante, sobretudo entre contadores, cujo trabalho depende muitas vezes da interpretação de leis”, diz.
Entusiasta do sistema, o consultor acredita que o modelo só não é mais usado no setor de serviços por falta de conhecimento e de um preconceito decorrente de fracassos ocorridos no passado.
Por se tratar de um sistema ainda muito recente no setor, a Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (Fenacon), não quis se posicionar sobre o assunto.
O diretor parlamentar, contador e um dos ex-presidentes da entidade, Valdir Pietrobon, entretanto, faz algumas ressalvas ao uso da franquia no setor contábil, embora acredite no potencial de crescimento desse modelo.
“O trabalho do contador vai além do cumprimento de obrigações acessórias. Ele deve orientar, assessorar e dar ideias aos clientes para a boa gestão dos negócios. Existe uma relação de pessoalidade que não pode ser perdida”, analisa.
Na opinião do diretor, o primeiro cuidado que os futuros franqueadores devem ter é o de conceder a autorização pelo uso da marca a pessoas de confiança.
Quanto aos clientes, os cuidados são os mesmos de quem procura um escritório de contabilidade tradicional: checar se a empresa e o profissional possuem registro no Conselho Regional de Contabilidade e órgãos específicos, procurar referências profissionais, analisar modelos de relatórios e os sistemas de comunicação e desconfiar dos preços baixos.
“Contabilidade não pode ser encarada como despesa, mas como investimento”.
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